sábado, 17 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 16 / 16






Olavo Bilac - Contos para Velhos - 16 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)






CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XVI - O PECADO


A Anacleta ia caminho da igreja, muito atrapalhada, pensando no modo porque havia de dizer ao confessor os seus pecados... Teria a coragem de tudo? E a pobre Anacleta tremia só com a idéia de contar a menor daquelas cousas ao severo padre Roxo, um padre terrível, cujo olhar de coruja punha um frio na alma da gente. E a desventurada ia quase chorando de desespero, quando, já perto da igreja, encontrou a comadre Rita.
Abraços, beijos... E lá ficam as duas, no meio da praça, ao sol, conversando.
— Venho da igreja, comadre Anacleta, venho da igreja... Lá me confessei com o padre Roxo, que é um santo homem...
— Ai! comadre! — gemeu a Anacleta — também para lá vou... e se soubesse com que medo! Nem sei se terei a ousadia de dizer os meus pecados... Aquele padre é tão rigoroso...
— Histórias, comadre, histórias! — exclamou a Rita — vá com confiança e verá que o padre Roxo não é tão mal como se diz...
— Mas é que meus pecados são grandes...
— E os meus então, filha? Olhe: disse-os todos e o Sr. padre Roxo me ouviu com toda a indulgência...
— Comadre Rita, todo o meu medo é da penitência que ele me há de impor, comadre Rita...
— Qual penitência, comadre?! — diz a outra, rindo — as penitências que ele impõe são tão brandas!... Quer saber? contei-lhe que ontem o José Ferrador me deu um beijo na boca... um grande pecado, não é verdade? Pois sabe a penitência que o padre Roxo me deu?... mandou-me ficar com a boca de molho na pia de água benta durante cinco minutos...
— Ai! que estou perdida, senhora comadre, ai! que estou perdida! — desata a gritar a
Anacleta, rompendo num pranto convulsivo — Ai! que estou perdida! A comadre Rita, espantada, tenta em vão sossegar a outra:
— Vamos, comadre! que tem? então que é isso? sossegue! tenha modos! que é isso que
tem? E a Anacleta, chorando sempre:
— Ai, comadre! é que, se ele me dá a mesma penitência que deu á senhora, — não sei o que hei de fazer!
— Porque, filha? porque?
— Porque... porque... afinal de contas... eu não sei como é que... hei de tomar um banho de assento na pia!...



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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 15 / 16





Olavo Bilac - Contos para Velhos - 15 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)


CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XV - OS ANJOS


No atelier do pintor Álvaro, a palestra vai animada. Lá está o poeta Carlos, muito aprumado, muito elegante, encostado a um buffet renaissance, sacudindo o pé em que a polaina branca irradia, mordendo o seu magnífico Henry Clay de três mil réis. Mais adiante, o escultor Júlio, amorosamente inclinado para a viscondessinha de Mirantes e namoradamente mirando o seu belo colo desnudado, faz-lhe uma preleção sobre o amor e a beleza: e ela, agitando com indolência o leque japonês, sorri, e crava nele os olhos maliciosos, deixando-o admirar sem escrúpulo o seu colo, — como para o desafiar a dizer se a própria Vênus de Milo o possui tão branco e tão puro... No sofá, o romancista Henrique discute música de Wagner com Alberto, — o maestro famoso, cujo último poema sinfônico acaba de fazer um ruidoso sucesso. São 5 horas da tarde. Serve-se o chá, em lindas taças de porcelana chinesa; e, nos cálices de cristal, brilha o tom aceso do rhum da Jamaica.
Agora, parece que Júlio, o escultor, arriscou um galanteio mais forte. Porque a viscondessinha, corada, morde os lábios e, para disfarçar a sua comoção, contempla um quadro grande, que está na parede do atelier, cópia de Raphael.
Júlio, falando baixo, inclina-se mais, ainda mais:
— Então, viscondessa, então? Ela, para desviar a conversa, pergunta uma banalidade:
— Diga-me, senhor Álvaro, o senhor, que é pintor, deve saber isso... Porque é que, em
todos os quadros, os anjos são representados só com cabeça e asas?De canto a canto da sala, suspende-se a conversa. Álvaro, sorrindo, responde:
— Nada mais fácil, viscondessa... queremos assim indicar que os anjos só têm espírito; damo-lhes unicamente a cabeça em que reside o pensamento, e a asa que é o símbolo da imaterialidade...
Mas o poeta Carlos, puxando uma longa fumaça de seu cheiroso Henri Clay, adianta-se até
o meio da sala:
— Não é só isso, Álvaro, não é só isso... Vou dar à viscondessa a verdadeira explicação do
caso... Tomou um gole de rhum, e continuou:
— Antigamente, nos primitivos tempos da Bíblia, os anjos não tinham apenas cabeças e asas: tinham braços, pernas e tudo. Depois do incêndio de Gomorra, foi que Deus os privou de todo o resto do corpo, deixando-lhes apenas a cabeça que é a sede do pensamento e a asa que é o símbolo da imaterialidade....
— Depois do incêndio de Gomorra? — perguntaram todos — porque?
— Já vão ver! E Carlos, dirigindo-se a uma estante, tirou uma Bíblia, abriu-a e leu:
— IX. Então, como as abominações daquela cidade maldita indignassem ao Senhor, mandou ele que dois Anjos fossem converter os perversos e aconselhar-lhes que se deixassem de abusar das torpezas da carne. X. E foram os Anjos, e bateram às portas da cidade. IX. E os habitantes foram tão infames, que os deixaram entrar, e assim que os tiveram dentro, também os violentaram, abusando deles...”
Houve um silêncio constrangido no atelier...
— Aí está. E o Senhor, incendiou a cidade, e, para evitar que os anjos continuassem a estar
expostos a essas infâmias determinou que, dali em diante, eles só tivessem cabeças e asas... A viscondessinha, dando um muxoxo, murmurou:
— Shoking!









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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 14 / 16





Olavo Bilac - Contos para Velhos - 14 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)







CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XIV - O DIABO


Tinham metido tantas caraminholas na cabeça da pobre Luizinha, que a coitada, quando, às dez horas, apagava a luz, metida na cama, vendo-se no escuro, tinha tanto medo, que começava a bater os dentes... Pobre Luizinha! que medo, que medo ela tinha do diabo!
Um dia, não pôde mais! E, no confessionário, ajoelhada diante de padre João, abriu-lhe a alma, e contou-lhe os seus sustos, e disse-lhe o medo que tinha de ver uma bela noite o diabo em pessoa entrar no seu quarto, para a atormentar...
Padre João, acariciando o belo queixo escanhoado, refletiu um momento. Depois, olhando, com piedade a pobre pequena ajoelhada, disse gravemente:
— Minha filha! basta ver que está assim preocupada com essa idéia, para reconhecer que realmente o Diabo anda a perseguí-la... Para o tinhoso amaldiçoado assim é que começa...
— Ai, senhor padre! que há-de ser de mim?! tenho a certeza de que, se ele me aparecesse, eu nem forças teria para gritar...
— Bem. filha, bem... Vejamos! costuma deixar a porta do quarto aberta?
— Deus me livre, santo padre!
— Pois, tem feito mal, filha, tem feito mal... Para que serve fechar a porta se o Amaldiçoado é capaz de entrar pela fechadura? Ouça o meu conselho... Precisamos saber se é realmente Ele que quer atormentá-la... Esta noite,deite-se, e reze, deixe a porta aberta... Tenha coragem ... Às vezes, é o Anjo da Guarda que inventa essas coisas, para experimentar a fé das pessoas. Deixe a porta aberta esta noite. E, amanhã, venha dizer-me o que se tiver passado...
— Ai! senhor padre! eu terei coragem?...
— É preciso que a tenha... é preciso que a tenha... vá... e, sobretudo, não diga nada a ninguém... não diga nada
a ninguém... E, deitando a benção à rapariga, mandou-a embora. E ficou sozinho, sozinho, e acariciando
o belo queixo escanhoado... ................................................................................................................................................... E, no dia seguinte, logo de manhã cedo, já estava o padre João no confessionário, quando viu chegar a bela
Luizinha. Vinha pálida e confusa, atrapalhada e medrosa. E, muito trêmula, gaguejando, começou a contar o que se passara....
— Ah! meu padre! apaguei a vela, cobri-me toda muito bem coberta, e fiquei com um medo... com um medo... De repente, senti que alguém entrava no quarto... Meu Deus! não sei como não morri... Quem quer que fosse, veio andando devagarinho, devagarinho, devagarinho, e parou perto das cama... não sei... perdi os sentidos... e...
— Vamos, filha, vamos...
— ... depois quando acordei... não sei, senhor padre, não sei... era uma cousa...
— Vamos, filha... era o Diabo?
— Ai, senhor padre... pelo calor , parecia mesmo que eram as chamas do inferno... mas...
— Mas o que, filha? vamos!...
— Ai, senhor padre... mas era tão bom que até parecia mesmo a graça divina...





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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 13 / 16





Olavo Bilac - Contos para Velhos - 13 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)




CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XIII - FEITO NO ESCURO...


Ele era branco, e ela branca, Ambos claros como a luz... Casaram. Baile de arranca, E pagodeira de truz...
O mais formoso dos ninhos Era a casa, à beira-mar, Onde, como dois pombinhos, Foram os dois arrulhar.
Só eles... e um cozinheiro, Que era o crioulo Manuel, Crioulo lesto e ligeiro, Obediente... e fiel.
Ali, Amor assentava Os seus doces arraiais, E o mar, gemendo, invejava Aqueles beijos... e o mais. ..................................................... Nove meses decorridos, Uma notícia correu: Escutaram-se os vagidos... E o morgadinho nasceu!
Que horror! que espanto! o menino, Filho daquela afeição, Era belo e pequenino, Mas... preto como carvão!...
O marido, ardendo em chama, Fígado cheio de fel, Quer, ali mesmo na cama, Estrangular a infiel.
Ela, porém, que o conhece, Pergunta: — “Você que tem? “Você maluco parece... “Reflita um pouco, meu bem!
“Bem lhe eu dizia, homem duro! “Porém, você a teimar... “Olhe! o que é feito no escuro, “Sempre há-de de escuro ficar!
“Pois... o pobre pequenino... “Feito de noite... bem se vê... Cada qual tem seu destino.... “O culpado foi você...” .............................................................. Tudo acaba em alegria... Mas o Manuel, no fogão, Malicioso sorria, E temperava o feijão.










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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 12 / 16






Olavo Bilac - Contos para Velhos - 12 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)




CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XII - O Defunto


O grave professor, aprumando sobre o nariz os óculos de ouro, começa a sua lição. Grave, grave, o professor Mac-Leley! calvo, vermelho, possuindo nas bochechas flácidas algumas falripas raras e grisalhas, o velho inglês é a circunspecção em pessoa. Sempre trajado severamente — calças negras, colete negro, rodaque de alpaca negra, gravata negra de três voltas... Grave, grave, o professor Mac-Leley!
Levanta-se, tosse duas vezes, passeia pela sala um olhar minucioso, e principia. Os meninos, em semicírculo, agitam-se, mexem-se, dispõe-se a ouvir a palavra do mestre, que vai fazer a lição de cousas. Justamente um dos alunos faltou: morrera-lhe um tio. E o circunspecto Mac-Leley aproveita a ocasião para ensinar à classe o que é um defunto, o que é a morte, o que é a vida, o que é um cadáver...
— Quando cessa o funcionamento de um orgão, meninos, diz-se que este orgão está morto. O corpo humano é um conjunto de órgãos... O funcionamento de todos esses órgãos é a vida. Se os órgãos não funcionam mais, o homem morre, é um defunto, é um cadáver...
(Mas... que é aquilo? pelos bancos da classe passa, contínuo e mal disfarçado, um risinho alegre. Toda classe ri, tomada de uma alegria irresistível...)
— Meninos! continua o grave Mac-Leley — quando o corpo morre, começa a decomposição...
(O riso da classe continua também. Todos cochicham, todos se estorcem, todos se agitam nos bancos. O velho mestre enrubesce, atrapalha-se, sem saber o que provoca aquela alegria. Mas, sem parar, com a voz trêmula, prossegue.)
— E quando há a decomposição, há a infeção e...
(O grave Mac-Leley, pobre! pobre grave Mac-Leley! baixa os olhos, mira-se, examina-se, fica trêmulo... Malditos botões! malditos botões! também as calças são tão antigas! malditos botões! Malditos botões!... E o grave Mac-Leley está sobre brasas, e é quase sem voz que conclui
o seu período.)
— Meninos... Quando há decomposição há infeção... e... por isso... por isso... é que é costume deixar a janela aberta... quando há defunto em casa...








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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 11 / 16





Olavo Bilac - Contos para Velhos - 11 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)




CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


XI - O VASO


Oh! o lindo, o lindo vaso que Celina possuía! e com que carinho, com que meiguice tratava ela as flores daquele vaso, o mais belo de toda a aldeia!
Levava-o a toda a parte: e, no seu ciúme, na sua avareza, não queria confiá-lo a ninguém, com medo de que mãos profanas estragassem as raras flores que nele viçavam. Ela mesma as regava, de manhã e à noite: ela mesma as catava cuidadosamente todos os dias, para que nenhum inseto as roesse ou lhes poluísse o acetinado das pétalas. E em toda a aldeia só se falava do vaso de Celina. Mas, a rapariga, cada vez mais ciosa do seu tesouro, escondia-o, furtava-o às vistas de todo o mundo. Oh! o lindo, o lindo vaso que Celina possuía!
Certa vez, (era por ocasião das colheitas) Celina acompanhou as outras raparigas ao campo. A manhã era esplêndida. O sol inundava de alegria e de luz a paisagem. E as raparigas iam cantando, cantando; e as aves nas árvores, gorjeando, e as águas do riacho nos seixos da estrada, murmurando, faziam coro com elas. E Celina levava escondido seu vaso. Não quisera deixá-lo em casa, exposto à cobiça de algum gatuno. E os rapazes diziam: “Aquela que ali vai é Celina, que possui o mais belo vaso da aldeia...”
Por toda a manhã, por toda a tarde, a faina da colheita durou. E, quando a noite desceu, cantando e rindo as raparigas desfilaram, de volta à aldeia. Celina, sempre retraída, sempre afastada do convívio das outras, deixou-se ficar atrasada. E, sozinha, pela noite escura e fechada, veio trazendo o seu vaso precioso...
Dizem na aldeia que aqueles caminhos são perigosos: há por ali, rodando nas trevas, gênios maus que fazem mal às raparigas...
Não se sabe o que houve: sabe-se que Celina, chegando à casa, tinha os olhos cheios de lágrimas, e queixava-se, soluçando, de que haviam roubado as flores do seu vaso. E não houve consolação que lhe valesse, não houve carinho que lhe acalmasse o desespero. E os dias correram, e correram as semanas, e correram os meses, e Celina, desesperada, chorava e sofria: “Oh! as flores! as flores do meu vaso que me roubaram!...”
Mas, no fim do nono mês, Celina consolou-se. Não tinha recuperado as flores perdidas... mas tinha nos braços um pimpolho. E o João das Dornas, um rapagão que era o terror dos pais e dos maridos, dizia à noite, na taverna, aos amigos, diante dos canecos de vinho:
— Ninguém roubou as flores da rapariga, ó homens! eu é que lhes fiz uma rega abundante, por que não admito flores que estejam toda a vida sem dar frutos...







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domingo, 11 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 10 / 16






Olavo Bilac - Contos para Velhos - 10 / 16


Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)


CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


X - IMUNIDADE...


Foi Praxedes Cristiano À Capital Federal: Levou a mulher, o mano E a filha. E, ao cabo de um ano, Regressa ao torrão natal.
Regressa... Vão esperá-lo, Com festas e rapapés,
Queimam-se as bichas de estalo,
Foguetes e busca-pés.
Praxedes, guapo e pachola, Vem transformado e feliz: Traz polainas e cartola, E guarda-chuva de mola, E botinas de verniz.
E a mulher, gorda matrona, É aquilo que se vê: — Vem que parece uma dona, — Vestido cor de azeitona, Saído do Raunier...
Depois do almoço, se ajunta Toda a gente principal: E, depois de toda junta. — O que há de novo, pergunta, Na Capital Federal.
Praxedes impa de orgulho, E principia a falar: “Ah! que vida! que barulho! No Rio, este mês de julho É mesmo um mês de gozar!”
Praxedes fala de tudo, Sem cousa alguma esquecer; Todo o auditório peludo Fica tonto, fica mudo, E de tudo quer saber.
Nisto, o velho boticário, Sujeito de distinção, Que idolatra o Formulário E é a glória do campanário. Põe em campo esta questão:
“Já que tanta cousa viste, Praxedes, dize-me cá: Dizem, não sei se por chiste Ou por maldade, que existe Muita sífilis por lá...”
“É pura intriga, seu Ramos!
(Diz o Praxedes) que quer?
Um ano por lá passamos... E nada disso apanhamos, Nem eu, nem minha mulher!”








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sábado, 10 de outubro de 2015

Olavo Bilac - Contos para Velhos - 09 / 16





Olavo Bilac - Contos para Velhos - 09 / 16

Olavo Bilac - Contos para Velhos (Áudio Livro)


CONTOS PARA VELHOS - Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)


IX - COMO A PESCADA...


Casados há três meses, — já o arrufo, já o ciúme, já a resigna... E Clélia quer que o marido, o Álvaro, lhe ponha já para ali toda a verdade: se foi de fato noivo de Laura, e porque é que foi expulso da casa de Laura, e porque não casou com Laura, e porque é que a família de Laura lhe tem tanta raiva...
— Mas, filhinha, sê sensata; não nos casamos? não somos felizes? não te amo como um louco? que queres mais? beijemo-nos que me importa a mim a lembrança de Laura, se é a ti que amo, se te pertenço, se sou o teumaridinho carinhoso? — suspira Álvaro, procurando com os lábios ansiosos os lábios da arrufada Clélia...
— Não, senhor! não, senhor! — diz a teimosa, repelindo-o — Não, senhor! quero saber tudo! vamos a isso! foi ou não foi noivo de Laura?
— Ai! — geme o marido — já que não há remédio... fui, queridinha, fui...
— Bem! e porque não casou com ela?
— Porque... porque o pai preferiu casá-la com o Borba, comendador Borba, sabes? aquele muito rico e muito sujo, sabes?
— Sei... Mas isso não explica o motivo porque o pai de Laura tem tanto ódio ao senhor...
— É que... é que, compreendes... tinha havido tanta intimidade entre mim e a filha dele...
— Que intimidade? vamos, diga tudo! o senhor costumava ficar sozinho com ela?
— Às vezes, às vezes...
— E abraçava-a?
— Às vezes...
— E beijava-a?
— Às vezes...
— E chegava-se muito para ela?
— Sim, sim... Mas não falemos nisso! que temos nós com o passado, se nos amamos, se estamos casados, se...
— Nada! nada! — insiste Clélia — quero saber tudo, tudo! vamos! e depois?
— Depois? mais nada, filhinha, mais nada... Clélia, porém, com um brilho singular da curiosidade maliciosa nos grandes olhos azuis, insiste ainda:
— Confesse! confesse! ela... ela não lhe resistiu? não é assim?
— ...
— Diga-o! confesse! — e abraça o marido, adulando-o...
— Pois bem! é verdade! — responde ele — mas acabou, passou... Que importa o que houve entre mim e Laura, se nesse tempo ainda eu não te conhecia, a ti, tão pura, a ti, tão boa, a ti que, enquanto foste minha noiva, nem um só beijo me deste? ...................................................................................................................................................
Clélia, muito séria, reflete... E, de repente:
— Mas, escuta, Alvaro! como foi que o pai soube?
— Por ela mesma, por ela mesma! A tola contou-lhe tudo...
— Ah! Ah! Ah! — e Clélia ri como uma louca, mostrando todas as pérolas da boca — ah! ah! ah! então foi ela quem... que idiota! que idiota! ah! ah! ah! Ora já se viu que pamonha? aí está uma cousa que eu não teria feito! — uma asneira em que não caí nunca...
— Como? como? — exclama o marido, aterrado — uma asneira em que não caíste?!
— Mas, certamente, queridinho, certamente! há cousas que se fazem mas não se dizem...
................................................................................................................................................... E, enquanto Álvaro, acabrunhado, apalpa a testa — lá fora, na rua, ao luar, um violão tange
o fado e a voz do fadista canta:
“Homem que casa não sabe Qual o destino que o espera... Há gente como a pescada, Que antes de o ser já o era...”






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